Quando o diagnóstico de câncer de próstata indica que a cirurgia é necessária, uma das primeiras perguntas do paciente costuma ser: "Qual é a melhor técnica?". A resposta, cada vez mais sustentada pela literatura científica, aponta para a cirurgia robótica — oficialmente chamada de Prostatectomia Radical Assistida por Robô (RARP).
Neste artigo, explico as diferenças entre as três abordagens cirúrgicas disponíveis — cirurgia aberta, laparoscópica e robótica — e o que as evidências científicas dizem sobre cada uma delas.
A prostatectomia radical — cirurgia que remove a próstata com o objetivo de curar o câncer — pode ser realizada de três formas:
É a técnica mais antiga, desenvolvida nas décadas de 1980 e 1990. O cirurgião realiza uma incisão de aproximadamente 10 a 12 cm no abdômen inferior para acessar e remover a próstata. Durante décadas foi o padrão-ouro, mas hoje é cada vez menos utilizada nos centros de referência.
Introduzida nos anos 1990, a laparoscopia substitui a incisão grande por pequenos orifícios no abdômen, por onde o cirurgião introduz uma câmera e instrumentos. Trouxe avanços importantes em relação à técnica aberta — menos sangramento, menor tempo de internação e recuperação mais rápida. No entanto, os instrumentos laparoscópicos convencionais têm mobilidade limitada, exigindo grande experiência do cirurgião para preservar estruturas delicadas.
A cirurgia robótica representa a evolução tecnológica da laparoscopia. O cirurgião opera sentado em um console, controlando braços robóticos com movimentos de alta precisão, visualização tridimensional ampliada e instrumentos articulados que imitam — e superam — os movimentos do punho humano. No Brasil, o sistema mais utilizado é o da Intuitive Surgical (sistema Da Vinci), para o qual o Dr. Bruno Hurtado possui certificação internacional.
Uma metanálise publicada em 2026, que analisou 27 estudos com mais de 38.500 pacientes, consolidou o que estudos anteriores já apontavam: a cirurgia robótica se associa a menor perda de sangue, menor necessidade de transfusão e menor tempo de internação — com melhores resultados funcionais, incluindo recuperação da continência urinária e maior taxa de preservação dos nervos responsáveis pela ereção.
Comparada à cirurgia aberta, a prostatectomia robótica reduz a perda de sangue em cerca de 516 mL e diminui a taxa de transfusão em mais de 75%. Isso significa menos riscos no período cirúrgico e recuperação mais confortável.
O tempo de internação hospitalar é em média 1,5 a 2 dias menor na cirurgia robótica em comparação com a técnica aberta. Em muitos centros de excelência ao redor do mundo, já é possível realizar a prostatectomia robótica com alta no mesmo dia ou no dia seguinte ao procedimento.
A taxa de complicações gerais após a cirurgia robótica é cerca de 40% menor do que após a cirurgia aberta. Isso inclui complicações como sangramento, infecção cirúrgica e trombose.
Este é um dos pontos mais relevantes para a qualidade de vida do paciente. Os nervos responsáveis pela ereção correm muito próximos à próstata — preservá-los durante a cirurgia é fundamental para manter a função sexual. A taxa de cirurgia com preservação nervosa é 64% maior na abordagem robótica em comparação com a técnica aberta, graças à visualização ampliada e à precisão dos instrumentos.
Como consequência direta da maior preservação nervosa, a recuperação da função erétil após a prostatectomia robótica é significativamente melhor do que após a cirurgia aberta. Isso não significa que todos os pacientes recuperam a ereção imediatamente — a recuperação leva meses e depende de fatores individuais — mas as chances são maiores com a técnica robótica.
Um ponto importante: em termos de controle do câncer, as três técnicas apresentam resultados comparáveis. As taxas de margens cirúrgicas positivas e de recidiva bioquímica são semelhantes entre a cirurgia robótica, laparoscópica e aberta. Ou seja, a cirurgia robótica não abre mão da eficácia oncológica — ela oferece os mesmos resultados de controle do câncer com menos impacto na qualidade de vida.
Ambas são minimamente invasivas e superiores à técnica aberta nos quesitos sangramento e recuperação. A diferença está nos detalhes — mas são detalhes que importam muito:
| Critério | Laparoscópica | Robótica |
|---|---|---|
| Visualização | 2D (bidimensional) | 3D ampliada (10x) |
| Articulação dos instrumentos | Limitada | 7 graus de liberdade |
| Tremor das mãos | Presente | Filtrado pelo robô |
| Preservação nervosa | Mais difícil | Mais precisa |
| Recuperação da continência | Boa | Superior |
| Recuperação da ereção | Boa | Superior |
| Curva de aprendizado | Longa | Mais reprodutível |
Estudo comparativo de 2024 demonstrou que a cirurgia robótica apresenta melhor recuperação da continência urinária e da função erétil em todo o período de seguimento em comparação com a laparoscópica — mesmo no início da curva de aprendizado do cirurgião robótico.
Meta-análise comparando as três técnicas confirma que as taxas de preservação nervosa, recuperação completa da continência e recuperação da função erétil são significativamente maiores após a prostatectomia robótica em relação à laparoscópica convencional.
Embora o advento da cirurgia robótica haver mudado o paradigma no tratamento do câncer de próstata, infelizmente ela ainda não é totalmente difundida e acessível a todos os homens com a doença. A cirurgia aberta ainda é muito realizada no Brasil, principalmente longe dos grandes centros, como São Paulo.
A cirurgia robótica é indicada para a maioria dos pacientes com câncer de próstata localizado ou localmente avançado que precisam de tratamento cirúrgico. No entanto, a escolha da técnica deve sempre levar em conta:
A conversa franca com o cirurgião antes da operação é fundamental para alinhar expectativas e entender os riscos e benefícios de cada opção.
Vale ressaltar que mesmo a tecnologia robótica pode não garantir a cura, principalmente em casos de doenças com características mais agressivas.
A cirurgia robótica representa hoje o estado da arte no tratamento cirúrgico do câncer de próstata. As evidências científicas são consistentes: ela oferece menos sangramento, menor tempo de internação, menos complicações e — principalmente — melhores chances de preservar a continência urinária e a função sexual, sem abrir mão do controle oncológico.
Se você ou alguém próximo foi diagnosticado com câncer de próstata e a cirurgia foi indicada, converse com um urologista especializado em cirurgia robótica para entender todas as opções disponíveis.
Referências: EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer, 2026 (uroweb.org) · AUA/ASTRO Guideline on Clinically Localized Prostate Cancer, 2026 · Comparative functional, perioperative and oncological outcomes of RARP vs ORP: systematic review and meta-analysis, Int Urol Nephrol, 2026 · RARP vs ORP: systematic review and meta-analysis of prospective studies, J Robotic Surg, 2023 · Comparative evaluation of continence and potency after RARP vs LRP, Surgical Oncology, 2024.
Ficou com dúvidas? Agende uma consulta com o Dr. Bruno Hurtado em São Paulo.
Agendar pelo WhatsAppDr. Bruno Hurtado Rodrigues — Urologista em São Paulo, especializado em uro-oncologia, cirurgia robótica e medicina sexual masculina. Mestre em oncologia pelo AC Camargo Cancer Center. CRM-SP 139.902 | RQE 55.410.